“Senhor… esconda minha irmã”, sussurrou o menino. Poucos minutos depois, a casa estava cercada

“Senhor… esconda minha irmã”, sussurrou o menino, e o homem concordou sem dizer uma palavra… mas apenas alguns minutos depois, a casa estava cercada, e quando o menino olhou furtivamente pela janela, seu rosto empalideceu instantaneamente ao ver o que viu.

Ao cambalear até a varanda, um de seus braços estava claramente ferido. Não era apenas um arranhão, um corte superficial ou o resultado de uma queda acidental enquanto fugia. O ferimento em seu braço era profundo e parecia muito sério. O tecido rasgado e sujo de sua camisa grudava em sua pele, e qualquer movimento brusco fazia o menino cerrar os dentes involuntariamente.

Ele parecia ter vivido as últimas horas como se tivessem sido as mais longas de toda a sua vida.

Seu rosto estava coberto por uma espessa camada de poeira. Um olho estava inchado, seu cabelo emaranhado de suor, e sua respiração era curta e irregular. Apesar de seu completo esgotamento, ele se recusava a descansar por um segundo sequer. Seu olhar não parava de se desviar para as árvores que cercavam a propriedade, como se a qualquer momento uma ameaça pudesse surgir de entre os troncos que escureciam.

Ele olhava por cima do ombro a cada poucos passos.

Não porque temesse apenas por si mesmo.

Ele temia, acima de tudo, por alguém que havia deixado para trás.

Marcus Gray estava sentado em uma velha cadeira de balanço na varanda de madeira. Suas botas pesadas estavam encostadas no corrimão e ele segurava uma caneca de café que havia esfriado há tanto tempo que ele nem se lembrava da última vez que a bebera.

Ele observava o pôr do sol em silêncio.

A luz do entardecer se espalhava pela paisagem em longas faixas douradas, cedendo lentamente lugar aos tons mais frios da noite que se aproximava. Em algum lugar ao longe, um pássaro cantou. O vento farfalhava na grama alta e as tábuas antigas da casa rangiam suavemente de vez em quando.

Marcus adorava noites como essas.

Sem conversa.

Sem perguntas.

Sem pessoas.

Sua casa ficava longe de qualquer outra construção, e não era por acaso. Os vizinhos mais próximos estavam a uma distância considerável, e a estrada que levava à propriedade era tão pouco movimentada que, às vezes, nenhum estranho a atravessava por dias.

Marcus escolheu essa vida por conta própria.

Quando retornou à sua cidade natal, trouxe consigo poucos pertences, mas um fardo pesado de memórias que, apesar da passagem do tempo, não conseguia dissipar. Ele não falava sobre o passado. Não buscava compaixão. Nem tentava explicar às pessoas por que escolhera viver tão longe de todos.

Ele valorizava o silêncio acima de tudo.

O silêncio não exigia nada dele.

Não fazia perguntas.

Não o lembrava das coisas que ele tentava esquecer.

Por isso, a visão de um garoto estranho cambaleando em direção à sua casa chamou imediatamente sua atenção.

Marcus parou de se balançar.

Por um breve instante, ele não se moveu. Observou a figura se aproximando da varanda, avaliando cada detalhe. O jeito como ele andava.

O ferimento.

Olhares nervosos em direção à floresta.

Medo.

No instante em que viu o menino com mais clareza, seu corpo inteiro se tensionou.

Reflexos antigos voltaram mais rápido do que ele conseguia pensar.

Sua mão se moveu quase automaticamente em direção ao rifle junto à porta.

O menino parou diante dos degraus que levavam à varanda.

Respirava com dificuldade.

Tentou falar, mas quando abriu a boca, apenas um som rouco e áspero saiu de sua garganta.

Marcus baixou as pernas lentamente até o chão.

Levantou-se devagar.

As tábuas velhas rangeram suavemente sob seus pés.

“Calma”, disse ele com uma voz gentil, mas firme. “Você está gravemente ferido.”

O menino imediatamente balançou a cabeça.

Com tanta violência como se seu próprio ferimento fosse a coisa menos importante do mundo naquele momento.

Tentou dar mais um passo, mas suas pernas cederam de repente. Ele cambaleou e só não caiu no chão agarrando-se firmemente ao corrimão no último instante.

Marcus aproximou-se dele.

“Sente-se.”

“Não…” o menino murmurou.

“Se você cair agora, não vai ajudar ninguém.”

As palavras pareceram surtir efeito, mas o menino continuou sem se sentar. Ele agarrou o corrimão, tentando reunir suas últimas forças.

Finalmente, olhou Marcus diretamente nos olhos.

Havia algo em seu olhar que fez o homem mais velho ignorar imediatamente o ferimento.

Aquilo não era medo comum.

Era desespero.

“Senhor… se eles vierem aqui… por favor, esconda minha irmãzinha…”

Marcus congelou.

Seu rosto, que um instante antes estava quase completamente inexpressivo, imediatamente se tornou sério.

Ele desceu da varanda.

“Quem?”

O menino abriu a boca, mas por um momento, não conseguiu pronunciar as palavras. Ele engoliu em seco com grande dificuldade.

“Quatro… talvez cinco.”

Marcus estreitou os olhos.

“Eles estão armados?”

O garoto não respondeu imediatamente. A mera lembrança do que vira parecia lhe roubar a voz.

“Eles incendiaram nossa casa…”

Marcus o encarou, sem palavras.

“Eles mataram meu pai… e minha mãe…”

A última palavra quase não saiu.

A garganta do menino.

Sua voz falhou.

Por um instante, foi como se tudo o que havia acontecido antes tivesse voltado à sua mente. O fogo. Os gritos. A fuga. O medo de sua irmã mais nova. A certeza de que ninguém além dele a protegeria.

Ele apertou os dedos no corrimão de madeira.

“Dizem que pegamos alguma coisa”, acrescentou depois de um momento. “Mas isso não é verdade. Eu juro. Não pegamos nada.”

Marcus respirou fundo.

O vento mudou de direção.

E então, ele sentiu um cheiro que nunca havia sentido antes.

Fumaça.

Um aroma muito fraco, quase imperceptível, mas suficientemente característico para alguém que soubesse o que procurar.

Marcus olhou por cima do ombro do menino em direção às árvores distantes.

Ele não conseguia ver as chamas.

Mas o cheiro não deixava dúvidas.

“Onde está sua irmã?”

O menino apontou imediatamente para as árvores que se aproximavam da água. — Ali.

— A que distância?

— Não. Ela se escondeu debaixo dos galhos. Eu disse para ela não se mexer até eu voltar para buscá-la.

Marcus olhou na direção indicada.

— Quantos anos ela tem?

— Oito.

O menino abaixou a cabeça.

— O nome dela é Eva. Ela está apavorada. Ela não queria ficar sozinha, mas… eu não podia trazê-la para cá até saber se…

Ele fez uma pausa.

Marcus entendeu perfeitamente a frase incompleta.

O menino não sabia se podia confiar nele.

E, no entanto, ele arriscou.

Marcus o observou atentamente por um instante.

— Qual é o seu nome?

— Noah.

— Certo, Noah.

Marcus olhou de volta para as árvores.

— Fique aqui.

Noah se endireitou imediatamente.

— Eu vou com você.

— Não.

“Mas ela pode ter medo de um estranho…”

“E você mal consegue ficar de pé.”

“Eu preciso…”

“Noah.”

Marcus disse o nome dele calmamente, mas havia algo em seu tom que encerrou a discussão.

“Se sua irmã me vir trazendo você aqui quase inconsciente, ela ficará ainda mais assustada. Fique aqui. Eu volto com ela.”

O menino hesitou por um instante.

Finalmente, assentiu.

Marcus caminhou em direção às árvores em um ritmo calmo e constante.

Ele não estava correndo.

Uma pessoa correndo faz barulho, e barulho em uma situação como essa pode revelar mais do que deveria.

Ele se movia quase em silêncio, evitando galhos secos e lugares onde o chão estava particularmente lamacento. A cada poucos passos, parava por um segundo e escutava.

O farfalhar das folhas.

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Vento.

Nada mais.

Imóvel.

Ele chegou às árvores junto à margem e começou a examinar cuidadosamente a densa vegetação rasteira.

A princípio, não viu ninguém.

Só depois de um instante percebeu um leve movimento sob os galhos baixos.

A menina estava encolhida contra o tronco de uma árvore.

Ela era pequena. Pequena demais para estar sozinha em um lugar como aquele, depois do que provavelmente havia vivenciado.

Seus cabelos estavam despenteados, suas roupas sujas e seus lábios trêmulos. Ela abraçava os joelhos, tentando ocupar o mínimo de espaço possível.

Quando viu Marcus, imediatamente se apertou contra a árvore.

Um lampejo de pânico brilhou em seus olhos.

Marcus parou.

Não deu mais nenhum passo.

Agachou-se lentamente a alguns metros dela, para não ficar muito mais alto que a criança.

“Não tenha medo”, disse ele baixinho.

A menina não disse nada.

Ela o encarou com os olhos arregalados.

“Seu irmão me mandou.” O rosto dela mudou ligeiramente ao ouvir aquelas palavras.

“Noah?”, perguntou ela, quase inaudível.

“Sim. Noah está na minha casa.”

“Ele está vivo?”

A pergunta era tão simples que, por um instante, Marcus não soube como responder.

“Ele está vivo.”

A garota soltou um suspiro trêmulo.

“Ele está ferido, mas consciente. Está esperando por você.”

Marcus estendeu a mão aberta, mas não tentou se aproximar dela.

“Meu nome é Marcus. Venha comigo. Vou levá-la para um lugar seguro.”

Eva olhou para a mão dele por um longo momento.

Depois para o rosto dele.

Depois para a mão dele novamente.

“Noah realmente te mandou?”

“Sério.”

“Ele me disse para não me mexer.”

“E você fez bem em obedecê-lo.”

A garota hesitou.

Marcus esperou.

Ele não a apressou.

Finalmente, muito lentamente, ela deslizou para fora de debaixo dos galhos.

Deu um passo.

Depois outro.

Quando estava perto o suficiente, estendeu a mão cautelosamente.

Seus dedos estavam gelados.

Marcus fechou a mão sobre eles.

“Certo”, disse ele. “Vamos voltar para o seu irmão.”

Ele a conduziu de volta para a casa, mantendo um olhar atento ao redor. Caminhava um pouco à frente dela, posicionando-se de modo que, se alguém aparecesse por entre as árvores, ele estaria entre ela e o perigo.

Eva não fez perguntas.

Apertou a mão dele com força.

Só quando o contorno da casa apareceu entre as árvores é que ela acelerou o passo.

Na varanda, Noah ainda estava parado onde Marcus o havia deixado.

Estava ainda mais pálido do que antes.

Apoiava-se no parapeito com uma das mãos, segurando o braço ferido com a outra.

Quando viu sua irmã surgir por trás das árvores, a tensão em seu rosto desapareceu subitamente.

“Eva…”

A menina soltou a mão de Marcus e correu.

“Noah!”

Ela se jogou em seus braços.

O rapaz cambaleou com o impacto, mas não a moveu nem um centímetro.

Apesar da dor lancinante, ele a abraçou.

Ele estendeu a mão boa e a apertou contra si.

“Está tudo bem”, sussurrou.

Eva enterrou o rosto na camisa dele.

“Pensei que você não voltaria.”

Noah fechou os olhos.

“Eu disse que voltaria.”

Marcus estava a alguns passos de distância, observando os irmãos.

O sol quase havia desaparecido completamente no horizonte.

A luz estava se esvaindo rapidamente.

Em instantes, a noite cairia — a hora em que as pessoas mais frequentemente fazem coisas que não querem fazer na frente dos outros.

Marcus caminhou até Noah.

“Eles sabem que você esteve aqui.”

Não era uma pergunta.

Noah ergueu a cabeça.

Depois de um momento, assentiu lentamente.

“Estávamos correndo pela floresta. Acho que eles perderam o rastro por um tempo, mas depois eu os vi de novo.”

“Eles viram para onde vocês estavam indo?”

“Acho que sim.”

“Acho que sim.” “Acho que sim” não é suficiente.

Noah baixou o olhar.

“Sim.”

Marcus ficou em silêncio por um momento.

“Eles não vão parar”, acrescentou o garoto.

Não havia exagero em sua voz.

Havia certeza.

Marcus olhou para Eva, que ainda segurava a camisa do irmão, como se temesse que, se a soltasse, ficaria sozinha novamente.

Então, olhou para Noah.

E então, lá no fundo, algo antigo despertou.

Algo que ele passara anos tentando esquecer.

Instinto.

Não o tipo que faz você lutar por lutar.

O outro.

O tipo que não permite que você desvie o olhar quando alguém mais fraco está diante de você e não tem para onde ir.

Por anos, Marcus se convenceu de que aquela parte de sua vida havia acabado.

Que agora ele só queria paz.

Que os problemas dos outros não eram seus problemas. Mas, olhando para as duas crianças paradas em frente à sua casa, ele percebeu que existem situações em que uma pessoa não toma uma decisão.

A decisão já havia sido tomada muito antes — por causa de quem ele era.

“Entrem”, disse ele secamente.

Noah olhou para ele surpreso.

“Senhor, se eles—”

“Eles virão”, interrompeu Marcus calmamente.

“Mas se o senhor nos mantiver aqui, eles podem—”

“Noah.”

O menino ficou em silêncio.

“Entrem. Fiquem longe das janelas.”

Eva cruzou a soleira primeiro.

Noah permaneceu na varanda por mais um segundo.

“Não quero que nada aconteça com você por nossa causa.”

Marcus olhou-o diretamente nos olhos.

“Você tem uma única tarefa agora.”

“Qual?”

“Fique com sua irmã.”

Noah assentiu.

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