Dylan havia parado de contar os dias. Estava sentado num banco de madeira gasto em frente à sapataria, segurando uma placa de papelão que dizia: “Engraxate por 1 dólar”. O frio da primavera penetrava seu casaco surrado, mas ele mal percebia. Fazia dois anos que sua vida havia desmoronado. Dois anos desde que perdera tudo.
Seu emprego. Sua casa. E Tina — a mulher com quem pensava que passaria o resto da vida.
Tina havia saído de sua vida de forma rápida e cruel.
“Você me pegou, Dylan”, disse ele então, com a mala na porta. “Gavin está me oferecendo uma vida que você nunca poderá me dar.”
Essa foi a última vez que a viu. Nessa época, ele já bebia, mas depois disso perdeu o controle. O álcool lhe tirou o emprego. Depois, o apartamento. E, por fim, a si mesmo.
O som de saltos altos na calçada o trouxe de volta ao presente. Dylan olhou para cima — estava prestes a perguntar se ela poderia engraxar os sapatos deles. Mas quando viu quem estava diante dele, congelou.
Blazer creme, pulseiras douradas, bolsa grande. Vanessa.
Melhor amiga de Tina.
DYLAN ABAIXOU A CABEÇA, ESPERANDO QUE ELA NÃO O RECONHECESSE.
Dylan baixou a cabeça, esperando que ela não o reconhecesse. Mas o olhar de Vanessa encontrou o seu. Surpresa, seguida de escárnio, cruzaram seu rosto.
“Dylan? É você mesmo?”
“Sim… oi, Vanessa”, ele respondeu baixinho.
Ela riu brevemente.
“Bem, a vida não tem sido gentil com você, não é? Até onde você pode chegar…
Ele a examinou de cima a baixo.
Dylan não reagiu. Já tinha ouvido coisas piores.
Vanessa inclinou a cabeça para o lado.
— JÁ DESCOBRIU?
— Já descobriu?
— O quê? — ele franziu a testa.
— A criança. Tina teve uma filha. Sua filha. Ela não disse?
O barulho do mundo desapareceu. O coração de Dylan deu um salto.
— O que você disse?
— Ah, Dylan… acorde!
— Não sei do que você está falando.
Vanessa suspirou.
— TINA DEU À LUZ A CRIANÇA DEPOIS DE TE ABANDONAR.
— Tina deu à luz depois de te abandonar. Gavin não queria ser padrasto. A menina não tinha nem um ano quando Tina a colocou em um lar adotivo. Ela pode ter… três anos. Agora?
Dylan deu um pulo.
— Você está mentindo.
— Ora! Por que eu inventaria isso? Eu vi a Tina numa festa mês passado. Ele se gabou de ter “colocado a vida em ordem”. O Gavin logo a pediria em casamento. Ele vivia no luxo.
Ele se inclinou para mais perto.
“Talvez seja hora de você colocar a sua em ordem.”
E saiu andando.
No dia seguinte, Dylan estava parado em frente à porta de uma luxuosa mansão em um dos bairros mais ricos da cidade. Ele sabia onde Tina morava. Certa vez, ele havia observado a casa da rua — antes de o carro dela ser roubado.
Ele bateu na porta.
Tina abriu a porta, vestindo calças de ioga e uma blusa de seda, segurando uma taça de vinho branco.
“Dylan? O que você está fazendo aqui?”
“Respostas”, disse ele. “A Vanessa estava falando sobre o bebê. Nosso bebê.”
Tina empalideceu e saiu pela porta.
“Como essa mulher ousa—”
“Sério?” Dylan perguntou asperamente: “Eu tenho uma filha?”
Os ombros de Tina caíram.
“Sim. O nome dele é Lila. Peguei o nome de um programa de TV.”
“Sim. O nome dele é Lila. Peguei o nome de um programa de TV. Ele tem três anos.”
O peito de Dylan apertou.
“Por que você não me contou? Onde ele está?”
“Não foi fácil!” Tina retrucou. “Gavin não queria um filho. E voltar para você? Teria me dado uma dor de cabeça. Recebi um ultimato. Fiz o que tinha que fazer.”
“Você foi embora! Seu próprio filho!”
“Não se faça de santo!” Tina retrucou. “Quando eu te deixei, você estava arrasado.”
“Onde ele está?” Dylan repetiu.
“No Centro de Acolhimento Sunnyside. No centro da cidade. Mas ele pode já ter sido adotado. Pedi uma segunda chance. Não venha procurá-lo.”
AS MÃOS DE DYLAN TREMENDO.
As mãos de Dylan tremiam.
— Precisamos de provas. Algo que prove que sou o pai dela.
Tina bufou e desapareceu pelo corredor. Voltou com uma certidão de nascimento.
“Está no papel. Vá agora. Eles nunca vão te entregar.”
Dylan tinha entrado na creche naquele dia. Ele segurava o papel com força, como se sua vida dependesse disso.
Sheila, a diretora da instituição, o cumprimentou.
“Quero ver minha filha. Ou saber se ela está aqui.”
Sheila examinou o documento.
— LILA? UMA MENINA MARAVILHOSA.
“Lila? Uma menina maravilhosa. Suas mãos estão sempre cobertas de tinta, uma verdadeira pequena artista.”
“Ela está aqui?” perguntou Dylan com a voz rouca.
“Sim. Entre.”
Ela o conduziu a uma sala de jogos iluminada. Uma menininha de cachos castanhos e olhos grandes estava sentada a uma pequena mesa. Lila.
Dylan prendeu a respiração.
— É ele?
— Sim. Foi difícil para ele encontrar uma família. Todos se apaixonam por ele, mas no fim não o acolhem.
— Porque ele não é deles — sussurrou Dylan.
ELAS SE SENTARAM PARA CONVERSAR. SHEILA DISSE A ELA EM BAIXO VONTADE: APARTAMENTO, RENDA ESTÁVEL, APROVAÇÃO JUDICIAL, ASSISTENTE SOCIAL — TUDO ISSO É NECESSÁRIO.
Elas se sentaram para conversar. Sheila lhes disse honestamente: apartamento, renda estável, aprovação judicial, assistente social — tudo isso é necessário.
— Eu faço qualquer coisa — disse Dylan. — Ela merece o mundo.
As semanas seguintes foram difíceis. Entrevistas de emprego, rejeições, olhares de desprezo.
À noite, ele varria a frente das lojas, só para se sentir bem. Percebeu.
Certa noite, o dono de um pequeno mercado o observava.
“Você está aqui todas as noites. Por quê?”
“Por causa da minha filha”, disse Dylan. “Quero sair daqui o mais rápido possível.”
sobre isso.
O velho Diego o chamou.
ELE TRABALHOU PRIMEIRO COMO FAXINEIRO.
Ele trabalhou como faxineiro. Esfregou e empacotava coisas por meses. Depois, teve ideias para organizar o depósito. Diego o ouviu.
Um dia, ele encontrou uma carteira cheia de dinheiro. Entregou-a imediatamente.
Diego sorriu.
“Foi um teste. Funcionou. Que tal você administrar a loja?”
Seis meses depois, Dylan estava em um modesto apartamento de um cômodo. Não era luxuoso, mas era limpo e aconchegante. Ele havia virado uma pequena esquina para o quarto de Lila.
Quando voltou ao centro, Sheila sorriu.
“Ele atendeu aos critérios. A transferência foi aprovada.”
Lila entrou, segurando um coelho de pelúcia.
“OLÁ, PAI. O QUE VAMOS FAZER HOJE?”
“OLÁ, PAI. O que vamos fazer hoje?”
Dylan se ajoelhou.
“Querida… nós vamos para casa.”
Dois anos depois, Dylan estava atrás do balcão de sua própria loja. Diego havia se aposentado e lhe emprestado o negócio.
Lila, agora com cinco anos, desenhava arco-íris atrás do balcão.
A vida não era perfeita. Mas era deles.
E pela primeira vez em muito tempo, Dylan se sentia completo.
