“Corta esse mato, Mateo. Pelo menos você vai aprender o que é trabalho de verdade”, disse Santiago, com um sorriso forçado.
Não era um sorriso benevolente.
Era o sorriso de um homem que ganha dinheiro num escritório sem suar a camisa.
Mateo estava parado no meio do cartório de Zacatecas. Suas botas empoeiradas e camisa gasta destoavam completamente daquele ambiente elegante. Diante dele, estava o mapa que decidiria o destino da família.
76 hectares.
O pai deles, Dom Arturo, havia reunido as terras ao longo de 40 anos.
Agora, elas estavam divididas por linhas vermelhas.
A parte de Santiago: 32 hectares de terra plana, ao lado de uma estrada principal, com um fluxo constante de água.
A parte de Diego: 28 hectares de pasto, com infraestrutura e animais já instalados.
E a de Mateo?
16 hectares… no canto mais isolado.
Abandonado.
Seco. Cheio de espinhos e terra rachada.
Nada.
Santiago olhou para ele com satisfação.
— Boa sorte… irmão.
DIGO NÃO DISSE NADA.
Baixou os olhos.
Suspirou.
Mateo olhou para o mapa em silêncio.
Então, suspirou.
Sem dizer uma palavra.
Lá fora, o sol escaldante castigava seu rosto.
Atrás dele, seus irmãos riam.
ELES ACHAM QUE GANHARAM.
Acharam que o tinham arruinado.
Mas não faziam ideia… do que havia sob a terra.
Dois dias depois, Mateo chegou ao seu território.
Uma velha caminhonete. Ar empoeirado.
O mato era tão denso que mal se conseguia enxergar.
Mas ele conhecia aquela terra.
Abriu caminhonete com um facão.
Por três dias.
Sangue, suor, arranhões.
Ao final do terceiro dia… ele percebeu algo.
As plantas estavam mais verdes.
O solo estava diferente.
Ele se ajoelhou.
Tocou-o.
Úmido.
Cavou.
E o buraco se encheu de água.
Água limpa e fria.
Seu coração batia forte.
Lembrei-me das palavras do pai:
“Há algo lá embaixo…”
Ele ligou secretamente para um especialista.
Após quatro horas de exame, o engenheiro ficou sentado ali… atônito.
— MATEO… ISTO NÃO É UM PEQUENO RECURSO HÍDRICO. ISTO É UM ENORME RESERVATÓRIO SUBTERRÂNEO. PODERIA ABASTECER UMA REGIÃO INTEIRA.
Mateo não contou a ninguém.
Começou a trabalhar.
Com afinco.
Construiu.
Um sistema de irrigação.
Cultivou.
Em silêncio.
Enquanto isso, seus irmãos riam dele.
Santiago em seu escritório.
Diego estava jogando dinheiro fora.
Então veio a seca.
Um ano atípico.
A pior em 15 anos.
O rio secou.
Os campos morreram.
Os animais enfraqueceram.
O dinheiro acabou.
Tudo.
No início do terceiro ano, um carro preto empoeirado parou na propriedade de Mateo.
Santiago saiu.
E congelou.
Campos verdes.
Água.
Vida.
Um oásis no meio do nada.
“Vocês têm… água?”, perguntou ele.
“Sim”, respondeu Mateo.
Silêncio.
“Eu pago”, disse Santiago. “Qualquer coisa.”
Mateo apenas disse:
“Traga Diego também.”
Há uma semana, os três estavam sentados a uma mesa simples.
Diego estava arrasado.
— Eu sabia… que era injusto. Mas eu ouvi.
Mateo serviu o café.
Olhou para ele.
— Eu poderia deixar você falir.
Silêncio.
— Mas não foi para isso que nosso pai trabalhou.
Eles olharam para cima.
— Água não se vende na família.
Santiago perguntou, chocado:
— Então… vocês estão dando de graça?
— Não.
Um longo silêncio.
— Vamos juntar as terras. Vai ser uma fazenda só. Eu vou administrar.
Foi humilhante.
MAS ELES NÃO TINHAM OUTRA ESCOLHA.
Aceitaram.
Com um aperto de mãos.
Um ano se passou.
Trabalharam juntos.
Santiago na lama.
Diego aprendeu tudo de novo. A terra prosperou.
A renda multiplicou-se por dez.
Certa noite, os três estavam sentados na varanda.
Pôr do sol.
Silêncio.
“Você acha que o papai sabia?” perguntou Santiago.
Mateo tomou um gole.
“Ele sabia como éramos.”
Uma longa pausa.
“ELE SABIA QUE VOCÊ ESCOLHERIA O BRILHO… EU ESCOLHERIA A TERRA.”
A seca levou o dinheiro.
A água devolveu a família.
E Mateo aprendeu:
nunca se deve subestimar uma pessoa que trabalha em silêncio.
