Minha avó morreu no meu aniversário de 19 anos. Justo quando entrei correndo para mostrar a ela a torta de mirtilo que finalmente tinha assado sozinha.
Ela estava sentada perto da janela, como sempre. Estava sentada do mesmo jeito. Tinha o mesmo cobertor no colo.
“Vovó?” Meu sorriso se desfez quando me aproximei. “Ei… não faça isso.”
Toquei sua mão.
Fria.
“Não. Não, não, não… você está brincando, né?”
Não me lembro de ter pedido ajuda. Só me lembro de estar sentada ali no chão, segurando seu vestido — como se, se eu soltasse, ela fosse desaparecer completamente.
Chegaram pessoas. Vozes encheram a casa. Alguém repetia meu nome, como se eu estivesse em algum lugar distante.
“ELE SE FOI, MINHA PEQUENA”, DISSE UMA MULHER GENTILMENTE.
“Não, ela só está cansada. Ela faz isso às vezes.”
Mas ela não fez.
Algumas horas depois, eu estava sentada na cozinha com a Sra. Kline, nossa vizinha, cujo perfume roxo era tão forte que me dava dor de cabeça. Ela tentava segurar minha mão, como se quisesse se certificar de que eu ainda estava ali.
“Oh, Emma…” ela suspirou. “Não consigo acreditar que Lorna se foi. Ela era tudo para você.”
“Ela ainda é”, eu disse, olhando para a torta que eu nunca tinha conseguido mostrar a ela.
A Sra. Kline assentiu e enxugou os olhos. “Eu me lembro de quando você a trouxe para casa. Você era tão pequena. Sete anos, ela se agarrava ao casaco, como se tivesse medo de que o mundo a levasse embora.”
“O mundo já tinha tirado tudo dela.”
“MAS ELA NUNCA DEIXOU VOCÊ SENTIR ISSO”, DISSE A SRA. KLINE BAIXINHAMENTE.
Eu ri um pouco. “Ele não me deixou escolher.”
A Sra. Kline se inclinou para a frente. “E isso era verdade. Mas desta vez é diferente.” Eu sabia aonde ela ia chegar antes mesmo de ela falar.
“Emma, você pensou na casa?”, perguntou ela cautelosamente. “É demais para uma garota. Contas, reparos… Você tem a vida toda pela frente. Faculdade, trabalho…”
“Eu não vou vendê-la”, interrompi.
“Eu não disse que você tinha que vendê-la…”
“Você não precisava. Eles sempre dizem isso.”
A Sra. Kline suspirou e torceu as mãos. “SUA AVÓ NÃO DEIXOU MAIS NADA, NÃO É?”
“Não. Só a casa.”
“Então tudo bem se você a deixar ir”, disse ela gentilmente. “Isso não significa que você vai deixá-la ir também.”
“Mas sim”, retruquei. “Essa casa é tudo o que sobrou dela.”
“Casas assim não duram para sempre, Emma. Daqui a alguns anos, ninguém vai querer. Vai ser algo que você não vai poder pagar.”
“Prefiro ficar aqui do que ficar sozinha”, eu disse baixinho.
Isso a fez parar por um instante. Meus olhos vagaram pelo corredor. Até o quarto da vovó.
A Sra. Kline seguiu meu olhar. “Preciso de algo para vestir para a cerimônia. Veja as coisas dela. Lorna guardava roupas lindas.”
EU NÃO GOSTEI DO QUE ELA DISSE. MAS MESMO ASSIM ME LEVANTEI.
O quarto da vovó parecia mais frio agora. Como se ela tivesse esquecido que ele existia.
Abri o armário devagar, inalando seu cheiro familiar. Por um momento, foi como se ela ainda estivesse lá, me dizendo para não olhar onde não devia.
“Sim, sim, eu sei”, murmurei. “Privacidade é importante.”
Afastei algumas roupas e parei. No final do corredor, havia uma capa para roupas que eu nunca tinha visto antes.
Com cuidado, tirei-a e abri o zíper. Dentro, havia um vestido azul claro.
“Você não pode…”
Peguei-o, o tecido leve em minhas mãos, como se não pertencesse àquela casa.
“ESTE É O vestido do baile…” sussurrei. “VOCÊ REALMENTE O GUARDOU ESSE TEMPO TODO.”
Me posicionei em frente ao espelho. Servia quase perfeitamente.
Atrás de mim, a Sra. Kline apareceu na porta. “Ah, este vestido.”
“Você já o viu?”
“Uma vez”, disse ela. “Há muito tempo. Ela nunca deixou ninguém tocá-lo.”
Voltei-me para o espelho. “Vou usá-lo no funeral.”
A Sra. Kline a ouviu imediatamente. “Precisa de alguns ajustes. Conheço um ótimo profissional — ele entende de peças vintage.”
“Certo.”
Ela sorriu, um sorriso um pouco gentil demais. “Vou anotar o endereço.”
Não notei seus dedos se tensionarem sobre o papel. Nem que o aroma de lilases se intensificasse à medida que ela se aproximava.
Tudo em que eu conseguia pensar era no vestido — e que talvez, se eu o vestisse, sentiria como se minha avó ainda estivesse aqui.
